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Eu Ubunto, tu Ubuntas, ele Ubunta...

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Por C@T +Biografia
26 de Janeiro de 2009

 

EU UBUNTO, TU UBUNTAS, ELE UBUNTA...

Em setembro de 1992 recebi de presente de um amigo um livro denominado “Zen and the Art of the Internet”, de Brendan Kehoe, que descrevia uma rede mundial de computadores até então desconhecida por mim. Eu já tinha ouvido falar numa tal de BITNET, mas essa outra “nova” rede parecia muito mais avançada e interessante. Logo que acabei de ler o livro já tinha perfeita certeza de que aquela tal de internet mudaria o mundo. E mudou mesmo.



Este foi o livro que me fez dar os primeiros
passos no miraculoso universo da internet.

No final daquele mês, fui almoçar com esse mesmo amigo e com mais um outro, que era administrador de internet em uma universidade no Rio. Ao final do rango, diante do meu entusiasmo com o livro de Kehoe, meus amigos me chamaram a ir no dia seguinte à tal universidade pois tinham uma surpresa para mim.

Na manhã seguinte lá estava eu, mal conseguindo me conter de curiosidade. Meus amigos me apresentaram a uma estupenda workstation Sun e, no login, digitaram “cat” e uma senha que ficou sendo a minha. Era a primeira vez que eu me logava no UNIX. Eles tinham me dado de presente minha primeira conta na internet.

A grande rede começava a me revelar seu fascinante universo e aquele UNIX era para mim um sistema novo, intrigante e poderoso, que me serviu de ferramenta numa fase mágica de descobertas online, muito antes de existir a web e interfaces gráficas como as que temos hoje.



Na época, essas estações da Sun eram o
“ó do borogodó”. Não havia hardware mais
porreta no pedaço. Nas universidades mais
abonadas era só o que rolava.

A gente sabe que quem nunca comeu doce, quando come se lambuza. Ocorreu o mesmo comigo. Confrontado com um vasto universo de sites de FTP anônimo, meu primeiro impulso foi baixar todos os arquivos que me despertassem interesse. E olhe que naquele tempo a mídia de transporte era disquete! Além disso, a ânsia de aprender mais sobre UNIX me levava a virar noites diante daquelas portentosas estações Sun, fuçando manuais, aprendendo comandos e experimentando programas.

Mas era preciso garantir o pão-nosso-de-cada-dia e a realidade me chamava a ter os pés em terra firme. Continuou o tempo a correr e segui trilhando meu caminho normal de usuário Windows, escrevendo profissionalmente sobre temas ligados a informática e tecnologia. Afinal de contas, os leitores queriam (e até hoje, reconheço, continuam querendo) ler coisas sobre o sistema mais usado pela massa.

Mas até as correntes do mar às vezes mudam de direção. Aos poucos, começou a se popularizar mais e mais o Linux, delineando uma tendência que desde então vem me encantando, ou seja, a possibilidade de ter em casa uma máquina completamente livre de Windows, na qual eu pudesse desempenhar todas as tarefas usuais do meu cotidiano computacional.

Em todas as tentativas que fiz de mergulhar de cabeça em alguma distro (gíria inglesa geek significando distribuição) de Linux, esbarrava em um ou outro obstáculo me impedia de realizar aquele sonho tão cuidadosa e carinhosamente acalentado há tanto tempo. Usei AIX no LNCC em belas estações IBM. Dei umas cabeçadas em máquinas de teste nas distros Conectiva, Suse e Fedora. Mas a falta de tempo e de um computador dedicado às experiências repetidamente me frustrava.

Em meados de 2008 tive meu primeiro contato com o Windows Vista, o suposto sucessor do XP. E achei-o demasiado cheio de firulas. Causou-me alguma antipatia o Vista, hoje vejo isso claramente, no retrospecto. Tal fato começou a me incomodar e, inconscientemente, acionei minhas antenas à cata de uma alternativa ao velho sistema operacional da Microsoft.

Foi então que, no final do mesmo ano, resolvi tomar vergonha na cara e me pus a procurar com empenho qual seria meu caminho linuxeiro escolhido. Com um grande camarada meu peguei um pendrive com a distro Slax, uma variante do Slackware. Dei umas cutucadas e gostei. Mas ainda não era o que eu sonhava.

Certa feita, numa dessas noitadas de bar, puxei assunto com um de meus melhores amigos, que me convenceu a experimentar o Ubuntu. Fui para casa e, logo na primeira googlada, topei com o significado filosófico do termo Ubuntu, que logo de cara me fascinou, incentivando-me ainda mais. Em seguida fui ao site da distro, fiz o download e dei boot pelo CD, naquele modo em que o usuário apenas sente o gostinho da coisa para, caso aprecie, render-se à nova doutrina. Tentei instalar o dito cujo, mas a minha mídia estava com defeito. Parecia um sinal celeste para eu desistir novamente, mas uma fagulha se mantinha acesa em meu íntimo.

Até que, no hall de espera da barca Niterói-Rio, na banca de jornal, uma revistinha simpática intitulada Ubuntu me chamou a atenção. No encarte, um CD com a Intrepid Ibex, apelido da mais recente versão do sistema operacional, a 8.10. Era disso que eu precisava. Arrebatei a revista e mandei ferro.



Se você ainda não experimentou, acho bom
se apressar, pois pode ser este o futuro.
Quem viver verá.

A gente sabe que distro de Linux é igual a time de futebol. Qualquer adepto ferrenho de uma ou de outra saberá enumerar rapidamente as vantagens da sua e as desvantagens das dos outros. Mas é quase uma questão de fé... ou melhor, de amor. Na vida real o paralelo é direto. Por qual motivo um cidadão se encanta com uma certa mulher e não com uma outra? É questão de pele, de energia, de vibração.

Pois eu fiquei vidrado no Ubuntu. Sim, fiquei mesmo. O bicho deu boot pelo CD e vasculhou todos os meus periféricos. Não sobrou um — tudo instaladinho e 100% reconhecido logo de cara. Bem, isso sem falar na delícia de sentir o cérebro coçando, se remexendo e se contorcendo para aprender coisas novas, vencer novos desafios, explorar novos horizontes.

Naturalmente nem tudo é perfeito no Ubuntu, nem em qualquer outra distro. Porém, mesmo assim, resolvi apostar. No entanto, como todo macaco velho, optei pelo mais prudente. Afinal, não faria mal algum testar um pouco o novo ambiente antes de enfiar a cara de vez. Foi o que fiz com o laptop da minha mulher, que estava encostado num canto, dado como morto. Tinha um HD crashado e o drive de CD defeituoso. Era a minha chance. Comprei um HD novo de 120 GB para o notebook, em substituição ao de 40 GB falecido, e dei boot com Ubuntu pela USB. Dividi o HD em duas partições — Ubuntu e Windows. Defini um dual boot e comecei meus experimentos com grande motivação.



Começou como paixão passageira, mas parece que está
caminhando para se tornar mais um caso de amor
verdadeiro e duradouro.

Considerando que, se fosse fácil demais, então não teria a menor graça, encarei como um desafio a recusa inicial do sistema em reconhecer o Wi-Fi nativo do laptop Compaq Presario 2000. Foram boas horas fuçando foruns em inglês em busca da solução. A controladora Wi-Fi do laptop era exatamente uma das que dava mais pau com o mais recente Ubuntu. Mas minha teimosia valeu a pena. E foi meu primeiro contato com a riquíssima comunidade solidária do Ubuntu em particular e do Linux em geral.

A regra de ouro é a seguinte: você nunca é a primeira pessoa a enfrentar determinado problema. Certamente outro usuário já esbarrou na mesma dificuldade que você e, com sorte, ele terá se proposto a apresentar o problema e a solução para a encrenca. Obviamente isso não acontece quando se está experimentando um sistema absolutamente novo, mas no caso da adoção do Ubuntu o retardado era mesmo eu, muitos outros já tinham se aventurado pelas trilhas que eu ora percorria. Minha gratidão aos abnegados e solícitos pioneiros no uso de Ubuntu é algo que não tem tamanho.

Logo em seguida, avisado de que faria uma viagem ao exterior a serviço, pedi conselhos ao guru Paulo Couto sobre o que deveria adquirir de componentes para montar uma máquina nova. Anotadas as recomendações, peguei meu vôo e, de lambuja, trouxe dos EUA também um grosso livro de Ubuntu. Ao retornar da viagem, cá estava eu com um PC zero bala e razoavelmente musculoso diante de mim, munido de dois HDs novinhos em folha para particionar do jeito que eu quisesse. Formatei um deles com Ubuntu 64 bits e outro com o velho XP. Criei um dual boot com Ubuntu entrando antes e mandei bala. Apenas uma mexidinha no Grub, o gerenciador de boot do sistema, e ficou tudo numa boa.

Atualmente, cada dia é um novo experimento, um desafio a mais para encarar, aproximando-me cada vez mais do meu sonho de livrar-me de vez do Windows. A configuração está cada dia mais estável e confiável. De resto, ainda mais confortável me sinto, pois sei muito bem que aqui no Fórum PCs tem um monte de feras que poderão socorrer mais este novato em caso de algum aperto.

Por enquanto ainda mantenho o caquético sistema da Microsoft no segundo HD para algumas tarefas em que o Windows seja essencialmente necessário, tais como acessar alguns irritantes sites exclusivos para Internet Explorer, sincronizar um celular Sony Ericsson K790 e explorar os meandros de uma camcorder Sony HDR-SR12. Mas já estou com o VMware Workstation aqui prontinho para criar uma máquina virtual XP dentro do Ubuntu 64 e dar mais alguns passos rumo à minha alforria total.

Como é doce o sabor da liberdade...



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