Meu quarto sempre foi entulhado de coisas que eu jamais usaria, mas tinha pena de jogar fora. Ainda hoje tenho centenas de caixinhas de balas Tic-Tac de laranja vazias, guardadas para uma instalação que pretendo construir algum dia. É o que alguns chamam de "complexo de esquilo", uma mania de armazenar bagulhos como os pequenos roedores estocam nozes em suas tocas.
Mas essas loucuras sempre foram limtadas pelo espaço físico - invariavelmente chega a hora de arrumar a casa e muitas das preciosidades estocadas acabam indo embora. No mundo da tecnologia, no entanto, o complexo de esquilo pode ser praticamente ilimitado. Seu HD está lotado de programas, músicas, ou imagens de que você nem lembra mais? Compre um HD maior e siga em frente!
Com a capacidade dos discos rígidos crescendo exponencialmente ao longo das últimas duas décadas, o salto dos 20MB para 200GB (um aumento de 10 mil vezes) do meu primeiro PC para o atual nem impressiona mais. O que assusta é que estes 200GB estejam praticamente lotados, principalmente por fotos digitais e MP3 (a maioria ripados de CDs adquiridos legalmente, não me comprometam).
A saída, mais uma vez, será acrescentar um disco novo (ou substituir um dos velhos por outro de maior capacidade). Com modelos de 320 GB a menos de US$ 200 (lá fora), é um dos upgrades mais simples e baratos que se pode fazer em um PC. Mas e se o problema acontecer em um MP3 player? Compro um de maior capacidade, como o iPod de 60 GB!
E se esse dispositivo também for usado para fotos e vídeos, tornando os 60 GB insuficientes? Basta esperar a Apple lançar um maior, certo? Sim, mas isso quase não foi possível devido a uma limitação tecnológica chamada de efeito superparamagnético, que por muito pouco não paralisou o aumento de capacidade dos HDs miniatura usado em dispositivos portáteis.
O superparamagnetismo é um efeito observado quando os elementos magnéticos de um disco rígido se tornam tão pequenos que passam a influenciar uns aos outros, provocando a perda de dados. O problema foi previsto décadas atrás (o primeiro HD foi vendido em 1956), mas nunca se soube ao certo até onde seria possível encolher esses elementos antes que eles começassem a girar aleatoriamente.
Nos anos 1970 falou-se em uma densidade máxima de 25 megabits por polegada quadrada, uma estimativa absurdamente baixa. Hoje existem HDs com mais de 100 gigabits por polegada, mas alguns pesquisadores acreditam que seria muito difícil superar os 120 gigabits sem uma mudança radical na tecnologia empregada.
Esta mudança atende pelo nome de gravação perpendicular e vem sendo pesquisada a fundo desde 1976, embora seja conhecida desde o fim do Século XIX. Consiste em posicionar os bits de dados verticalmente em relação ao disco, enquanto a técnica atual (gravação longitudinal) os dispunha horizontalmente. Além de não interferirem uns nos outros, os bits passam a ocupar menos espaço, permitindo densidades muito mais altas.
A Hitachi foi a primeira a chamar a atenção da mídia para a gravação perpendicular. Demonstrou em março uma aplicação prática da tecnologia, atingindo uma densidade de 230 gigabits por polegada, e publicou um
excelente relatório sobre o assunto, bem como a
animação explicativa de onde capturamos a imagem acima. Está entre as coisas mais engraçadas que vimos na Internet nos últimos tempos, não deixe de assistir!
O chato é que enquanto a Hitachi contava vantagem e prometia produtos comerciais baseados em gravação perpendicular para 2007, a Toshiba passou a frente e lançou, no Japão, uma linha de MP3 players de alta capacidade (como o Gigabeat cor-de-rosa da foto abaixo) que usam HDs com gravação perpendicular. Mas não se preocupe - a teconologia logo, logo chegará a um eletrônico portátil perto de você!
