Há duas semanas, durante o Congresso Telecom Américas, promovido pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), na Bahia, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, declarou que prossegue com o firme propósito de regulamentar a TV Digital no Brasil ainda este ano. Melhor: que sua decisão de adotar um dos três padrões em uso no mundo – o japonês (Japão), o americano (ATSC) e o europeu (DVB) – era irrevogável.
Quem acompanha este conturbado lenga-lenga sabe que muito disse-me-disse já rolou a respeito do assunto desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. Dentre as discussões principais estava a possibilidade de o Brasil optar por um modelo próprio, nacional, que não seguisse os princípios de outros países e que privilegiasse os interesses nacionais, valorizasse a criatividade da indústria nacional e acabasse com a “dependência tecnológica em relação a outros países”.
A possibilidade irritou muita gente, principalmente os grandes conglomerados empresariais que, de uma forma ou de outra, já vinha apoiando a adesão do país em uma das três tecnologias e investindo pesado em equipamentos que a suportem.
A questão é que muito tempo se perdeu neste lenga-lenga e, até agora, nada se viu de muito prático. A TV Digital pode trazer grandes benefícios para o usuário doméstico – dentre eles a melhoria na qualidade da imagem e a possibilidade de interatividade entre quem produz o conteúdo e quem o recebe. Além disso, a TV Digital traz a possibilidade de mobilidade.
E aí todo um novo leque de opções se descortina e uma gama de novos agentes passa a se interessar. Exemplos? As operadoras de telefonia móvel. Há alguns anos elas já vêm estudando o assunto, apresentando pequenos (e ruins) protótipos de TV no celular e sinalizando com o seu interesse na transmissão de TV Digital através dos terminais móveis. Tanto representantes do GSM (apoiando o padrão europeu) quanto adeptos do CDMA (capitaneados pela Qualcomm) já declararam publicamente seu interesse na exploração dos serviços que advirem da adoção da TV Digital no Brasil.
Ensino a distância é mais um belo exemplo do que pode dar certo. Outra aplicação é o acesso à internet através da TV. Mas ainda não se tem um estudo que comprove que o consumidor deseja, de fato, unir computador e TV em um só aparelho.
O mercado é gigantesco, não resta dúvidas. Há no mundo mais de 600 milhões de aparelhos de TV com recepção decente. No Brasil, a TV está , segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia, em 90% dos lares.
No final de setembro, o ministro Hélio Costa declarou, no Senado, a veiculação das primeiras transmissões de TV Digital no Brasil, citando a Copa do Mundo do ano que vem, na Alemanha, como marco obrigatório para a implantação da TV Digital no país, pelo menos nas principais capitais como Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Mas... pagando quanto? Sem regulamentação? Quem vai prover? As novas TVs de alta resolução vão custar mais caro? Haverá decodificadores suficientes de modo que as TVs atuais possam também receber conteúdo digital? E a que preço sairia esses decodificadores? E quem os forneceria?
Tem mais: mesmo que já estivesse regulamentada a TV Digital, ainda seria necessário um bom tempo para que as fabricantes, por exemplo, pudessem colocar TVs digitais no mercado. Não à toa, tanto a TV Globo quanto a associação que reúne os fabricantes de televisores (Eletros) já reagiram à declaração do ministro, declarando ser impossível o Brasil ter TV digital a tempo para a Copa de 2006.
No mesmo pronunciamento, Costa afirmou que a transição total do modelo analógico para o digital se dará no máximo em dez anos. Será mesmo?
Dentre os achismos do ministro, pelo menos uma declaração pôde ser aproveitada – Costa garantiu que o governo brasileiro deverá mesmo adotar um dos três modelos em uso no mundo e adaptá-lo à realidade brasileira, dando a cara de produto nacional.
Muita gente saiu decepcionada, é fato. Mas muita gente viu, na decisão do ministro, uma saída para aquele mesmo lenga-lengra que se prolonga há tantos anos. Não é necessário reiventar a roda, por mais que isso doa no ego dos nacionalistas.