É bem provável que você esteja neste momento utilizando uma conexão internet em banda larga. Mas estou quase certo que lhe é familiar o velho e irritante barulho de conexão de um modem de linha discada, aquele ruído repleto de chiados parecidos com o miado de um gato sendo esmagado.
Outro dia visitei um amigo mais ou menos da minha idade, 45, e fizemos alguns testes com um modem velho. O filho dele, ao ouvir o ruído típico da conexão discada, sentiu-se como num verdadeiro flashback. Arregalou os olhos e disse: "
Caraca, pai, que barulho mais antigo!" Ele se lembrou de quando era mais novo e toda noite o pai se pendurava na internet, produzindo o tal barulhinho tão familiar.
Em breve, haverá crianças que nunca terão ouvido falar em acesso à internet por modem em linha discada. Mesmo hoje em dia, por exemplo, se você pronunciar o nome Hayes, muitos não saberão do que se trata.
Aqui está, este é o Hayes, Dennis C. Hayes, para ser mais exato.
Em 1973, Dennis C. Hayes formou-se em Física pelo Georgia Institute of Technology, vulgo
Georgia Tech. Foi estagiário na AT&T Long Lines e depois trabalhou para a Financial Data Sciences, onde participou do desenvolvimento do primeiro processador de 4 bits para uso comercial. Em seguida, foi contratado pela National Data Corporation, onde atuou como gerente operacional da equipe de redes de comunicação. Foi quando trabalhava nesta empresa, em 1977, junto com seu colega Dale Heatherington nas horas vagas à noite, que Hayes construiu na mesa da sua sala de jantar um modulador-demodulador controlado por microprocessador para uso em PC's. Era o primeiro modem inteligente da História. O usuário podia enviar comandos do computador para o modem utilizando o que mais tarde seria conhecido como "Conjunto padrão Hayes de comandos AT" (
Hayes Standard AT Command Set), uma linguagem simples de comandos de controle em ASCII, todos começando com as letras A e T.
A invenção do modem estabeleceu a tecnologia crítica que permitiu o florescimento da indústria online atual e da própria internet. Hayes começou a vender seus modens a aficionados por computadores em 1977. Em janeiro do ano seguinte, fundou em Norcross, subúrbio de Atlanta, no estado da Georgia (EUA), a firma D.C. Hayes Associates, Inc. O investimento inicial para abrir a firma foi de US$ 5.000, que era toda a grana que Dale Heatherington tinha no momento. Puseram uns anúncios na revista Byte e os pedidos começaram a chegar. Hayes e seus amigos começaram a montar as placas na mesma velha mesa de jantar. Heatherington pegava as placas e ia testá-las no porão de sua casa. Os modens eram embalados em espuma e despachados para entrega em embalagens parecidas com caixas de pizza. Isso foi antes de abrirem a primeira fábrica, que se expandiu rapidamente.
Foto de Hayes em 1983, quando o mercado de modems estava começando a explodir. Estes aparelhinhos ganharam reputação de serem versáteis e confiáveis e logo se tornaram um padrão na indústria da informática. Nesta época, Dennis Hayes ainda sonhava em construir um império. Nos dias atuais, a marca Hayes foi vendida à empresa Zoom Telephonics, Inc.
Os modens patenteados Hayes eram bons, muito bons. Durante muitos anos, no jargão da ciência da computação, o termo "
Hayes-compatible" teve o valor de um importante adjetivo, orgulhosamente estampado nos manuais, nas especificações e nas embalagens de qualquer modem que se prezasse. Os Hayes funcionavam em qualquer computador. Era só espetar e ligar, um show. Tive em casa dois modens Hayes. Era um produto tão endeusado que, na hora de tirá-los da caixa, eu sentia que era meu dever ajoelhar-me e me voltar para Meca. Eles tinham sólida reputação de confiabilidade e os comandos AT eram tiro e queda. Aliás, os tais comandos foram durante muito tempo o sustentáculo financeiro da empresa pois Dennis Hayes mantinha seus advogados sempre no campo forçando fabricantes a pagarem royalties pelo uso do padrão AT.
A Hayes cresceu, cresceu e chegou a abocanhar 60% do mercado. Dennis pretendia que sua firma crescesse até o tamanho imperial de uma IBM ou de uma HP. Mas enquanto pensava em impérios, seu sócio Heatherington só pensava em sartar fora.
Dale Heatherington, hoje cheio da grana, mora com a esposa numa mansão, cuida do seu próprio gramado e passa o tempo inventando robots de briga, como este, seu campeão, Screaming Machine.
Ele ocupava o cargo de projetista eletrônico senior e era dono de quase metade da companhia. Não era da área gerencial em nem queria sê-lo. Não gostava de falar à imprensa nem de ir a eventos. Gostava mesmo era de inventar coisas. Trabalhava feito louco, mas focava-se na área técnica. A competição se acirrava, a tecnologia se acelerava e Dale Heatherington só queria se livrar daquela corrida insana. Seu sócio apreciava o clima competitivo, mas Dale não gostava e, com apenas 36 anos, decidiu se aposentar. Hayes ficou chocado, pois sabia (ou achava) que ainda havia muito mais grana a ganhar no mercado nos anos seguintes. Resultado: Heatherington partiu com um acordo que lhe poria no bolso US$ 20 milhões ao longo de dez anos. Hayes continuou na corrida.
Heatherington sabia perfeitamente que se tivesse permanecido na firma teria ganho ainda muito mais dinheiro. Mas perguntou para si mesmo de quanta grana precisava. A vida é uma só e não dura para sempre.
Logo adiante surgiram dificuldades administrativas e problemas de fabricação. Na época da transição dos modens de 33,6 para 56 kbps as vendas começaram a estagnar. Começou o declínio. A US Robotics, da 3Com, assumiu a liderança e a Hayes virou número dois. As dívidas se acumularam, os credores foram perdendo a paciência e finalmente a Hayes decretou falência.
Eis aqui nosso Hayes em foto recente, ex-imperador dos modens.
Dennis Hayes, depois disso, perdeu o ritmo. Sua estrela apagou. Hoje, duas vezes divorciado e com problemas de visão, consegue sobreviver, mas a grana está apertada. Quando encontra um ex-empregado seu dos áureos tempos da firma e ouve dele lamentações e nostalgias, responde: "Não esquente a cabeça, apenas tenha orgulho do que conquistamos. Nós mudamos o mundo."