Tirando pérolas como "Pela Internet", na qual o então-futuro-Ministro Gilberto Gil perguntava, lá em 1996,
Com quantos gigabytes/ Se faz uma jangada/ (...) Que veleje nesse infomar, ou a ultrabrega "Vou te excluir do meu Orkut", de Ewerton Aguiar, encontrar referências explícitas ao mundo da informática em letras de músicas não é algo muito comum.
A não ser, é claro, que você seja fã do rapper MC Frontalot - nome artístico do americano Damian Hess. Com uma
letra cuja segunda estrofe começa com
making mention of my dj CPU/ nerd-core hip hop is the style he use e termina com
i'ma listen to the bootleg mp3/ post the frontalot demo on my ftp, Frontalot acabou batizando, lá nos idos de 2000, o gênero músical do qual é o maior expoente: o
Nerdcore Hip Hop.
Com letras cheias de referências a temas tecnológicos ou simplesmente geeks (como dados de RPG ou os filmes e quadrinhos preferidos desse público), os nerdcores usam a internet como seu principal canal de divulgação e distribuição, existindo praticamente à margem da indústria fonográfica tradicional. Faz sentido, já que a internet é a maior ameaça ao ultrapassado modelo de negócios - a venda de CDs - das gravadoras.
Mesmo quando um nerdcore resolve fazer uma música romântica ou falar de sexo, a internet está presente - e sem ser brega, como o sertanejo do MSN. É o caso de
Romantic Cheapskate, em que Frontalot narra seu caso de amor com o site de competições musicais
Songfight, onde se consagrou depois de inscrever cinco músicas e
vencer com todas. Ou, melhor ainda, de
PrOn SOng, sobre o vício em pornografia online.
Até o guarda-roupas dos rappers nerdcore, ainda que seja por questão de marketing pessoal, é inspirado no estereótipo do nerd dos anos 1980. Como é meio difícil descrever esses caras que se apresentam de gravata é óculos de aro grosso e a música que eles fazem, nada melhor do que mostrá-los em ação: confira no YouTube o
trailer do filme Nerdcore Rising, um documentário sobre o gênero, ainda em fase de produção.
Foto por Phil Palins
O nome do filme, aliás, é o mesmo do primeiro CD do MC Frontalot, lançado em 2005. O segundo, Secrets from the Future, foi lançado na semana passada, e ambos estão
à venda no site do rapper, junto com adesivos, camisetas, óculos iguais aos que o MC usa nos shows e até um par de seus óculos de verdade, usados, "com resíduos de DNA suficientes para você abrir seu laboratório de clonagem de frontalots". Por "apenas" US$ 578,50.
Estranhou o fato dele ter batizado o gênero em 2000 e só gravado um disco cinco anos depois? Pois o estranho é ele ter lançado um CD, já que, até então, distribuía suas músicas todas pela Internet. Pode ir
lá no site dele: são dezenas de músicas em MP3, OGG e AAC, tudo para baixar de graça! Frontalot se rendeu ao modelo dos CDs ? Segundo a letra de "
Charity Case", é tudo pelos fãs:
I love you so damn much i'll sell ya CDs.
O rapper segue esculhambando a RIAA, associação das gravadoras americanas, com os versos
"Art Must Be Free" is the decree./ The finale is my lecture on the evils of the R-I-double-A,/ how they gonna sue you every single time you hit play./ they're lame! must revolt! what's that you say?, mas acaba se declarando vítima das mesmas práticas que a RIAA combate:
kids are pirating the frontalot?/ oh no, I got betrayed!
Em vez de processos, no entanto, Frontalot decidiu apelar para a caridade dos geeks que o idolatram. No refrão, ele pede para comprarem o CD ou pode acabar passando fome:
I need you/ to buy my CD so I could buy food. E termina a música questionando a aversão dos nerds a pagar por conteúdo e dizendo que, se não fosse isso, estaria nadando em dinheiro e não implorando de joelhos para acreditarmos que seu CD não é grátis:
I once harbored as regards the tune vending. / if only the nerd kids' aversion to spending / money on data got inverted somehow/ I'd be making my way through all my dollars with a plow / but instead I'm down on ground on my knees/ begging y'all to believe my CD isn't free.
A julgar pelos
reviews que seu CD recebeu na Amazon, a estratégia pode estar dando certo. Até os consumidores que acharam o CD pior do que as músicas originais (que tiveram que ser remixadas para excluir os samples usados sem autorização dos autores) recomendam a compra. Afinal, o MC Frontalot precisa comer! Não sou fã de rap, mas achei a história tão legal que já encomendei o meu
Em tempo: semana que vem estarei em São Francisco, terra natal de Damian Hess, para participar da Web 2.0 Expo - provável assunto da próxima coluna. E quando os amigos começarem a fazer piadas sobre minha passagem pela cidade mais g a y do mundo, vou me lembrar de outra letra de Frontalot, "I heart fags" (ele, não eu).